Quem nunca se fez essa pergunta? É tão comum olharmos com descrença para o futuro incerto quando não há ninguém conosco para fazer planos e nos encher de esperanças. Com ela era exatamente assim, diziam à ela inúmeras vezes que era jovem demais pra amar, diziam também que era jovem demais pra fazer tantos planos sobre o futuro e sonhar mais ainda, diziam que era jovem demais pra sofrer. Se isso era verdade, porque então ela continuava fazendo tudo isso? Se há uma coisa que ela aprendeu com a vida, é que pra amar, sonhar e sofrer não há idade, só necessidade e dom.
Quando a noite pairava no horizonte a pior onda de tristeza e sofrimento a acorrentou ao chão, não conseguiu se mover e não se atreveu a abrir os olhos. Todos estavam em algum lugar, fazendo alguma coisa, com alguma outra pessoa, mas ela estava ali, imóvel e abandonada. Sabe, a pior solidão é aquela que nós impomos a nós mesmos, aquela que gente nenhuma consegue fazer diminuir e remédio nenhum consegue fazer parar. É a solidão da espera, espera por algo que nunca se viu.
De repente ela se lembrou de um nome, vagamente em sua mente o nome se associou a uma imagem, um rosto na verdade. Ela se lembrou dele, aquele que em seus sonhos a resgatava da rotina maçante e torturante do dia-a-dia, que a enchia de rosas e presentes únicos, que sussurrava em seu ouvido o quanto ela era especial e maravilhosa, mas por alguma razão depois de tanto tempo cultivando esses pensamentos dessa vez quando associou o rosto a pessoa não se lembrou de todas essas fantasias, se lembrou apenas dele em seus piores momentos, quando a humilhou, lhe deu expectativas e depois as arrancou furtivamente.
Um surto de raiva ameaçou tomar conta dela, mas aí um outro rosto invadiu sua mente, um rosto terno que sorria pra ela. Há algum tempo atrás ela havia conhecido o dono daquele rosto, informalmente e muito mais pra indiretamente, mas pelo menos havia conhecido um nome pra ele. O dono do sorriso era charmoso, tinha auto porte e exalava algo que ela associava com destreza e força. Ela sorriu sem querer, ainda de olhos fechados fez uma careta, como que se policiando sobre a reação impulsiva, mas depois se deixou livre para cogitar a hipótese de pensar mais a fundo no dono daquele rosto, que mesmo novo lhe parecia plenamente familiar. Ela já não se sentia tão sozinha, nem mais com tanta raiva, agora se sentia calma e esperançosa como se quisesse pular em uma imensa piscina só pra ver até onde ia o fundo.
Ela se levantou da grama que já estava úmida pelo sereno que caía, tinha perdido a hora e com certeza iria ouvir uma longa bronca sobre sua irresponsabilidade, mas ela não se importava. No caminho de volta veio sentindo o cheiro das coisas, sentiu seu sangue correr pelas veias, sentiu ar em seus pulmões novamente, reparou nas pessoas que andavam perto dela e nas estrelas no céu. Ela não conseguia tirar o enorme sorriso do rosto, sem perceber ele só estava crescendo em sua face. Quando chegou ao portão de casa sua expressão mudou, ela ficou um pouco rígida e tensa como alguém que acabou de chegar a uma grande conclusão, e foi exatamente isso que aconteceu. Ela respirou fundo e percebeu que sua mente não vagava mais sozinha, agora ela tinha alguém em quem dedicar seu tempo e por alguma razão sentia que seria correspondida e que seria diferente. Percebeu que passou meses pensando na pessoa errada mas que lhe ensinou inúmeras coisas certas sem querer, como por exemplo amar sim, nunca desistir mas se proteger a cima de tudo, para esperar pacientemente pela pessoa certa. Ela não tinha certeza se aquele outro rosto que estava gravado em sua mente seria um dia gravado em seu coração também, mas ela sentiu um arrepio pelo corpo como se tivesse acordado de um sono profundo, olhou em volta sorriu de novo e teve certeza que seu coração agora estava livre.
Ela nunca mais olhou triste e sozinha pro horizonte vazio e imenso, ela aprendeu a dar um valor imenso a tudo que passa por sua vida, graças aquele sorriso meigo e marcante que sim, por acaso, por destino, por alguma razão superior ou não ficou impresso em seu coração, aquele garoto ensinou a garota que ela era uma mulher, uma mulher forte e plena e que podia ser feliz, desde a primeira vez que ela o viu sorriu e desde então não parou mais.

